quarta-feira, agosto 05, 2009

fala a minha alma

Quelimane, 2 de Agosto de 2009
Mando
Eu, que sempre fui pêndulo, tu bem o sabes, oscilo entre dois sentimentos agora. Por um lado, a compreensão do que sentes, dos teus receios, da tua auto-preservação e até da raiva que porventura sentes de mim, querendo assim deixar-te quieto, distante, salvaguardado das minhas alterações de humor e de propósito, da minha confusão, afinal. Por outro lado, o inconformismo com isso que parece ser o medo em ti, que é exatamente do que eu fujo em mim ao procurar-te novamente. Desse mesmo lado, a falta que me fazes, nada autista, aliás, por tratar-se da tua ausência em mim e não de uma ausência. Fosse assim, outro já a teria preenchido. E não existe outro, pois há apenas um sol. Não busco, não penso em nem desejo outro, porque não há outro Mando. Desse lado, o vazio que nada parece preencher, antes só ocupado por nós. O horizonte sumiu.
Não, não tenho nada resolvido em mim, é verdade. O impasse é o mesmo e imagino o quão frustrante isso deve ser para ti. Mas quem seria a te escrever se te trouxesse os sentimentos bem marcados e delineados, sem borrões ou turvação? Não seria eu, meu amor. E isso também o sabes. Quem conheceste há 4 anos? Foste tu quem te fascinaste com o meu percurso errante, não te lembras? E eu amei a tua paixão revestida de rudeza, o teu olhar sempre voltado ao horizonte, que me abriu um mundo inteiro que eu não conhecia, que eu não enxergava. Tu, que me trouxeste a vertigem, eras quem eu esperava, quem eu amava antes mesmo de conhecer, eras o que me faltava, daí não haver como eu não ser autista ao te amar, pois sendo metade apartada de mim, te amar é amar a mim mesma. Não desisti, meu Mando. Seja lá o que decidires, continuarei aqui, fala a minha alma.

Tua sempre
Ilser
Nota de Carlos Serra a 5/8/09: permitam-me reiterar que Mando e Ilser existem realmente.

domingo, agosto 02, 2009

futuro incriado

Tete, 23 de Julho de 2009

Olá.
Bem, ao fim de todo este tempo decidiste vir à tona do teu autismo e, ao olhares o que te rodeava, espantaste-te e disseste para ti (é sempre para ti e em ti que evolues na vida): Deus, afinal ele existe, ele é ele, o Mando!
Esse, afinal, o teu real problema.
Melhor, bem melhor: dois problemas.
O primeiro consistiu e consiste em invocares a moral tradicional para asfixiares aquilo que foi a pureza sempre renovada da nossa relação, pureza que, afinal, tinha apenas um lado a nutri-la: eu. Deves admitir isto.
O segundo problema consistiu e consiste no teu autismo imenso, no apenas viver unicamente para ti que és. O resto, eu, tudo, é apenas algo em que poisas temporiamente os olhos distraídos, muito temporariamente. Nem são os olhos: são apenas a sua possibilidade, após o que te readquires, sem de ti teres saído.
Sofres? De que sofres? Sofres de sofrer, de sofrer por prazer no teu baú autista? E a ti pópria de consolas, não é? E pensas que apenas tu sofres, não é? Que descaro, Ilser!
Eis-me, então, na penumbra de um futuro incriado.
E tatenda pela pequena atenção que me dedicaste.
Mando