terça-feira, julho 22, 2008

Não plantes um cadafalso na alma

Tete, 21 de Julho de 2008
Quida Il
Recebi a tua carta, obrigado por seres sincera.
Cabe-me agora a vez da palavra e vou usá-la com a mesma sinceridade com que usaste a tua.
Onde te situaste, que modelo situacional foi o teu?
O da subalternidade, supostamente teu modelo. Foi no interior desse modelo, desse prisma falso, que te viste e nos viste.
Porém, Ilser, eu nunca te vi nem nunca te verei no interior do teu modelo. O meu é completamente outro, pertence à luz real, ao promontório do futuro.
Sabes, Il, nunca te vi como mais uma, como segunda, como passageira clandestina do meu coração, como objecto de prazer consumido nas muitas noites e nas muitas madrugadas que têem sido as nossas. Foste apenas sempre tu, estrangeira a qualquer convencional hierarquia, jamais clandestina, jamais abaixo do que quer que seja. Olhei-te e olho-te como tu, como apenas tu, em tudo o que tens de belo e de diferente, de irredutivelmente único.
Minha eterna sombra, meu eterno desvão, cave da minha vida, passageira de terceira classe? Jamais. Quem te disse que os olhos das convenções e das regras do dia são os melhores juízes da pureza? Quem te disse que o amor - em tudo o que ele tem de total, de subversivo, de anti-hábito, de transfronteiriço - pertence à ordem do que os outros querem que ele seja? Quem te disse que é mais puro o mundo daqueles que, quantas vezes hipócratas, defendem a "luz do dia" como critério de verdade afectiva? E quem te disse que era nocturna a nossa luz?
Preocupa-te o que os outros querem e decidem, preocupa-te o verniz social, preocupa-te o que outros decidem que devem ser as nossas acções, preocupa-te o que o exterior decreta do que deve ser o nosso interior.
Amor ou é total ou não existe. Quando é total jamais tem em conta aquilo que os outros exigem que ele seja: uma etiqueta que exibimos de forma ordeira, pacificada, bem comportada, que tudo cumpre regradamente, que tudo exibe modelarmente como a graxa dos sapatos.
Classificas o meu amor pelos olhos da graxa dos sapatos: quere-lo luzidio, socialmente conveniente, publicamente regrado e respeitável, impoluto em seu brilho de feira de exposições, feliz das virtudes dos casais tranquilos que fazem amor duas vezes por semana sempre à mesma hora como dever bíblico e que depois adormecem nos lençois da bonomia estupidificada.
Fizeste e fazes de mim o eixo dos teus caprichos. Amas caprichos, amas-te. Eu sou uma elemento ocasional no teu autismo.
Quanto a mim, amo-te não pelos outros ou na ponta de um capricho, amo-te por ti. Tu e eu temos compromissos, sabe-lo bem. Nunca eu questionei os teus, mas tu entendeste que devias questionar os meus. Esqueceste-te de que nos jurámos amor eterno, fossem quais fossem as vicissitudes da vida. "Sou tua para sempre"- disseste-me várias vezes. Minha, Ilser? Não. Mergulhada por inteiro no teu autismo, apenas miras as convenções, o olhar dos outros. Degolas um amor no altar das convenções. Por isso, afinal, nunca amaste: apenas foste e és o termómetro da opinião pública.
Trair? Jamais. Trai não quem convencionalmente trai na tua óptica, mas quem transforma o amor em jogo de convenções. Aí sim, aí habita a real e única traição. Quem ama não olha às fronteiras dos outros, não se pauta pelas etiquetas, pela hipocrisia externa, não transforma a fita métrica dos outros em avaliador da alma. Quem ama fá-lo por inteiro, sem reservas, sem vírgulas, sem pontos finais. Quem ama não se hipoteca ao que os outros podem pensar, mas ao que as almas têm por decisivo.
Amante? Sim. No sentido mais puro e total: alma e corpo. Corpos há muitos, Ilser, superfícies de carne são replicáveis. Mas almas, Ilser, apenas há uma: a tua. E foi essa que busquei, é essa que busco.
Sabe, Ilser, que me sai da alma o que escrevo, como me sai da alma esta busca de ti faz três anos. Lembras-te daquela frase que um dia encontrámos já não sei onde? Amar é loucura salvo quando se ama com loucura.
Não assassines o amor, não plantes um cadafalso na alma, não convertas o amor numa camisa bem passada, num vestido decente, numa face conveniente, num teatro de burgueses satisfeitos com o seu relógio dos bons costumes.
Teu ontem como hoje porque sempre no futuro.
Mando

10 Comments:

Blogger Lisa said...

Meu Deus tanta pergunta para a Ilser saberá ela responder ou irá deixar as peguntas de lado e responder com uma carta apaixonada?

Lisa:-)

terça-feira, julho 22, 2008 11:05:00 da manhã  
Blogger Lisa said...

Depois de receber a tua carta Carlos o solo abriu-se sobre os meus pés e uma onda de interrogações absorve-me como uma simples poeira. Rostos, textos, pensamentos, uma multidão de coisas empurram-se na minha cabeça, e não consigo fazer a triagem. Estou cansada moralmente, cansada de pensar, de ser consciente, de ter que obedecer às obrigações… O meu espírito reencontra-se cativo do quotidiano e procura um meio para evadir-se, escavar um túnel para traze-lo á superfície! Preciso de um dia, só um dia para deixar o meu espírito vadiar, não fazer nada mais que sonhar… Sonhar a vida, sonhar-te!
Desculpa se não procurei o amor que sentes por mim na sua profundidade, na sua autenticidade, na sua infinita beleza...Amor ….Palavra tão falada para enganar corações esperançosos e iludidos, tão pronunciada para alcançar a satisfação pessoal e tão usada para justificar os erros mais absurdos. É desta forma deturpada e iludida que o conhecemos, que inicialmente aprendemos, através de uma sociedade espiritualmente morta, escravizada pela matéria, de mentalidade podre... É com esta base que passamos a construir um castelo de sonhos, alicerçados por ilusões e fantasias que facilmente desmorona com a primeira tempestade, deixando em ruínas uma obra oca, levantada por uma operária sem preparação, que ignora totalmente as funções das ferramentas que dispõe e, e tão pouco procura meios para obter estes conhecimentos....
Eu fui um pouco como essa operária e peço-te perdão, não irei mais plantar um cadafalso na alma. Sabes Carlos, neste momento pairam na minha mente frases emaranhadas, de imagens que se desdobram, de momentos contigo.
A tua boca na minha, que me deixa sem fôlego a minha língua na tua pele
o teu abraço apertado, os nossos corpos entrelaçados,
as tuas mãos nos meus seios. Os meus olhos nos teus, o delírio do prazer,
A tua boca na minha pele, os teus dedos perdidos em mim
O grito.
E o silêncio do depois.
Como te dizer que te amo e que te quero,
E que te desejo a cada instante?
O que faço de tudo isto,
desta paixão que não se esgota?

Sempre Tua..

PS: Acho que perdi a capacidade De juntar palavras que sussurram o meu desejo.

terça-feira, julho 22, 2008 11:46:00 da manhã  
Blogger Lisa said...

Prof: Carlos um dia ainda ei-de lhe perguntar como é que faz para por o icone da musica tão pequenininho..Já tentei por varias vezes e não vi nada no site que indique tal coisa..
:-) Lisa

terça-feira, julho 22, 2008 12:20:00 da tarde  
Blogger Sara said...

Pode o Carlos escrever um dia uma carta assim para mim? Meu Deus, arrepio-me toda!

terça-feira, julho 22, 2008 12:39:00 da tarde  
Blogger Joana said...

E para mim?

terça-feira, julho 22, 2008 12:50:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Meu amor

Não te vou escrever uma carta de amor.
Não te vou dizer que te amo ou que te quero, nem te vou dizer que povoas os meus sonhos e os meus desejos.
Não vou escrever que és o meu primeiro pensamento quando acordo nem que é o teu corpo que eu procuro quando me deito e nos teus braços que adormeço.
Não te vou contar que são as tuas mãos que me afagam os seios quando a água do duche escorre quente na minha pele.
Não vou escrever as vezes que te espero em silêncio, nem o sorriso que me provocas com as tuas palavras tontas, doces, tão perdidas quanto as minhas.
E aquele brilho no meu olhar quando dizes que me amas? Não, também não vou escrever sobre isso.
Nem sobre os dedos que percorrem o meu corpo e que imagino serem teus...
E que é o toque dos teus lábios que me alimenta a alma o dia inteiro? Nem a ti o confesso!...
Não, meu querido, não te vou escrever uma carta de amor. Não seria capaz de transformar em palavras o que sinto por ti.

Francica

terça-feira, julho 22, 2008 2:34:00 da tarde  
Blogger Carlos Serra said...

Há um equívoco: não sou eu quem escreve as cartas, mas Mando.

terça-feira, julho 22, 2008 3:47:00 da tarde  
Blogger Lisa said...

upsss tem razão prof: Carlos..mas já é habito usar o seu nome, que esqueço completamente "Mando"..

Mas veja uma coisa..Mando é mais um Indicativo- presente do que um nome..Por isso quando leio Mando é como se fosse voçê a mandar a Carta.
E Ilser esse nome ai é um pouco mais complicado mas nada que eu não possa imaginar de outra maneira.
Como sei françês e sabendo que o senhor tb sabe seria facil imaginar outra coisa.
Ex: Il..( ça serais vous par exemple).. e "ser" em tradução para françês seria "être" O que daria ...Vous etes entrain de nous envoyer vos propres lettres...

Un peu compliqué n´est ce pas, mais pas impossible á comprendre..
:-))

hehehhe Lisa

terça-feira, julho 22, 2008 4:33:00 da tarde  
Blogger Lisa said...

A minha carta de Mando para Ilser seria assim:

Uma luz

O Vale do meu coração é um mundo onde repousam os meus sonhos perdidos, onde minhas palavras deleitam-se dos meus calafrios Um mundo que criei ao critério das minhas tristezas. Já não tenho forças, não consigo pensar, apenas rastejo, à procura de uma Luz de uma mão que me traga as respostas ás perguntas que já esqueci, as lágrimas lavaram-me o discernimento, o tempo passa, as paredes de Amor que construí caíram, tijolo a tijolo, um a um, numa destruição lenta e sofrida que olhei de perto, feri as mãos tentando mantê-los a todos nos seus lugares, não fui capaz, não fui tão forte quanto pensava, vi o fim anunciado quando de uma só vez, a derrocada aconteceu, debaixo dos escombros fiquei eu, preso ao passado, a ti, peço-te ajuda, estico-te a mão, e tu viras-me as costas.

Chamo o teu nome do fundo de um poço que eu sem querer ajudei a fazer, e tu, não me ouves, escrevo-te cartas na alma, e tu, rasgas as folhas em branco que encontras, tento pousar para descansar nos teus ramos, e tu, derrubas a árvore, dou volta ao mundo das magoas e tu, nem sentes a minha alma a gritar. Vivo na utopia daquilo que o meu ser me oferece, escurece, ao longe, na linha deste horizonte de ilusão, tenho frio, mas não fecho a janela, o meu coração diz-me que não voltarás, mas a minha alma quer esperar…

Preciso do aconchego dos teus braços vestidos de lágrimas e prantos solitários onde o silêncio é o mote de cada instante nosso.
Quero-te Ilser
Teu Mando


Lisa

quinta-feira, julho 24, 2008 2:39:00 da manhã  
Blogger Carlos Serra said...

Linda carta, Lisa. Mas não foi essa que Mando recebeu...

quinta-feira, julho 24, 2008 10:47:00 da manhã  

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