segunda-feira, julho 21, 2008

Como um punhal

Quelimane, 20 de Julho de 2008
Mando
Agora que estás melhor - tantos têem sido os nossos mútuos telefonemas! -, chegou finalmente a altura de te dizer com objectividade o que se passa comigo há três anos, desde que nos conhecemos através do canal que bem conheces. De o dizer por este meio que tanto amas, a carta, a epístola que, como amiúde gostas de referir, cheira a tinta, cheira a coisa real.
Custa-me muito escrever o que vou escrever, mas essa é a melhor solução para ambos. E perdoa desde já a minha sinceridade.
Da última vez que estivemos juntos senti com uma acuidade acrescida, como um punhal que me ferisse irremediavelmente por dentro, quão injusta é a nossa relação, quão ela fere as regras da decência, quão ela fere os nossos, meus e teus, quão ela é uma traição frontal aos meus e aos teus. Ainda hoje, Mando, guardo a ferida, ferida sempre mais aberta, ferida consciente de que é chegada a altura de pôrmos fim à nossa relação.
Afinal de contas, Mando, quem fui eu para ti senão a segunda, a eterna amante, a mulher clandestina que te dava prazer, mas que não podia nem pode dizer ao mundo da nossa relação? Algum dia pudeste pensar nisso, pudeste tentar sentir como eu tenho sentido, por mais amor que por ti sinta? Creio que não.
Tranquilamente foste arranjando planos para os encontrarmos, para vivermos e viveres a eterna sombra que para ti sou, o eterno desvão, a cave da tua vida, tua vida que à superfície é outra e que não não posso nem me deixas partilhar. Entendes, Mando, o meu sofrimento? Vária vezes tentei dizer-te isso, mas sempre me coibi de o dizer frontalmente, tentei que percebesses de forma indirecta. Mas tu sempre achaste que poderíamos manter esta relação tal como está, secreta, inexistente aos olhos da sociedade e dos costumes, cheia de pecado, pecado que Deus nunca me perdoaria se eu não fosse capaz, finalmente, de dizer não, de pôr um basta a tudo, mesmo que isso me custe, como me custa.
Era isto, em breves palavras, Mando, o que eu queria dizer-te. Estaremos juntos ainda na vez que combinámos já, mas será a despedida. A partir desse dia seremos livres um do outro, com amizade, sem segundos sentidos nem mais obscuridade (a minha), está bem?
Perdoa-me a sinceridade.
Recebe o meu afecto carinhoso.
Sempre amiga.
Ilser

2 Comments:

Blogger micas said...

Amor lindo como este não acaba.Não pode acabar.

Como pode Deus achar pecado quando o amor é sublime? Não é a fusão dos corpos e das almas, a forma mais bonita de dizer sem palavras o significado do amor?

Tenho para mim que este amor ainda irá dar frutos.Que o reencontro seja para breve e então sim, aí será eterno.

segunda-feira, julho 21, 2008 12:23:00 da tarde  
Blogger Lisa said...

Amor calado

Exausta, sento-me no banco frente ao monitor, onde como quem folheia um livro, percorro as inúmeras cartas que tenho escrito

Releio o passado, analiso cada vírgula., relembrando o meu estado de espírito nos momentos em que as escrevi.

Cartas diárias que não fogem muito do mesmo tema, pensamentos descritos dos mais belos sentimentos, os que eu senti e vivi e sinto ainda hoje quando penso em ti.

Foram tantos os momentos, tantos dias.

E hoje?

Hoje verto lágrimas em cada palavra que escrevo, nestas páginas em branco.

Sinto necessidade de escrever, desabafar, gritar as palavras presas no meu peito, gritar a revolta que sinto por não te ter ao meu lado.

Hoje simplesmente escrevo, escrevo-te os meus sentidos, os meus sonhos, o meu sofrer, a minha dor o meu gritar por não te poder amar.

Todos as cartas são dedicadas exclusivamente a ti, e em cada palavra, cada gesto dos meus dedos neste teclado, és tu que estás no meu pensamento.

A nossa cumplicidade, o nosso amor, o nosso carinho estão nestas linhas que escrevo e me lembro com ternura o teu rosto.

Algumas, escrevo o que tem sido a perda, a dor, o sofrimento de não te ter.

São marcas bem profundas que jamais o tempo sarará.

Hoje estou aqui….aprendi que as coisas não acontecem só aos outros e

que a “desgraça” bate á nossa porta quanto menos esperamos.

Quando dizem que o tempo é a cura para tudo! Eu não acredito.

Quanto mais ele passa, mais sofro com a tua ausência e mais profunda fica a dor da partida.

Hoje aprendi a ficar em silêncio, olho sempre o hoje e o amanhã com outros olhos.

Para Cartas de Amor


Lisa

segunda-feira, julho 21, 2008 2:54:00 da tarde  

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