quinta-feira, julho 31, 2008

esse teu andar é meu

Tete, 30 de Julho de 2008

Ilser
Li a tua carta. Li-a e reli-a.
Sabes, Ilser, deixa-me explicar-te a minha pobre teoria.
Ao longo da vida ancorei em vários amores, aqui e acolá tentei convencer-me de que efectivamente amava A ou B, que amava A ou B por aquilo que ela era ou que eu julgava que ela era, para cada amor construí um caixilho de amor que eu, esforçadamente, atribuía à paixão. Todavia, ano após ano, descobri que nunca verdadeiramene amei, que aquilo que entendia por paixão no tal caixilho era, afinal, apenas, uma busca sem fim, que realmente apenas me deixei amar, que tudo se passava e se passou corporalmente, no interior de corpos, na tactabilidade sempre igual dos corpos.
Ora, Ilser, corpos há muitos, como sempre te tenho dito. Mas almas, são raras.
Até que um dia conheci-te, fará três exactos anos dentro de algum tempo. E aconteceu, então, que deixaste de ser mais um corpo, mais um caixilho, para seres, de facto, a mulher por quem, pela primeira vez, senti paixão. Perdoa o envelhecido de tal termo, mas acho que ele merece ser recuperado.
Essa paixão nada rem a ver com o teu corpo - por mais belo que seja, como é -, nada tem a ver com sexo: qualquer corpo de mulher pode servir para sexualizar uma ligação, os estalidos baixo-ventrais são coisa corriqueira e fácil, os espermas não têm pátria feminina.
Em ti encontrei aquela coisa indefinível cujo conteúdo ignoro hoje ainda - e isso é ainda mais apaixonante, essa ignorância designorada - , aquela secreta coisa que existe e ao mesmo tempo é volátil. Essa coisa chama-se alma.
E, sabes, é quando andas, naquela tua maneira muito peculiar de andar - doce, algo bamboleante, como se cada passo procurasse, incerto e trémulo, fazer amizade definitiva com o destino desconhecido -, é quando te vejo caminhar que, imediatamente, te sinto, almaca, total, é quando encontro e reencontro aquele teu jeito de produzir em mim a necessidade inexorável de te ter. Nunca entenderás isso, mas tenho para mim que o que somos, a nossa alma, viaja em permanência em partes específicas do nosso corpo. No teu caso, a alma viaja na tua maneira de andar.
E andando tu, ando eu. O meu andar precisa do teu para sobreviver, és, por inteiro, irremediavelmente, o meu combustível.
Seja o que for que faças, digas, prometas, esse teu andar é meu - esse andar mágico como o meu Zambeze, acre-estranho como o melambe, mas totalmente doce com a maçanica. Para sempre, mesmo que não queiras. Ser-te-ei o senhor feudal mesmo que sumas, sou e serei livre sendo teu prisioneiro. Podes decidir do teu futuro, mas nada poderás fazer em relação à alma-andar. Protestes ou não, recuses ou não, ela pertence-me, habita-me, habitar-me-á. Mesmo que não te veja, mesmo que a distância nos magoe pela insistência, és-me, em cada gomo do teu andar.
Esta é uma carta de amor? Mas olha lá, algum dia pude deixar de te escrever cartas de amor? Algum dia deixei de andar pelo teu andar, de me sentar na soleira da tua alma, de a acariciar e de a penetrar? Decidir no próximo encontro onde habita a chave do nosso futuro, como propuseste? Algum dia tive um futuro que não passasse e que não passe por cada passo teu, por cada passo-alma teu?
Teu, faças o que fizeres, hoje e amanhã.
Mando

terça-feira, julho 29, 2008

Lanho-te

Quelimane, 28 de Julho de 2008
Li a tua carta, senti que estás muito ferido.
Creio que puseste muita ênfase na falsidade, na minha busca de conveniência social. Talvez tenhas razão. Mas não toda. E, talvez, nem sequer a principal razão.
Sabes, Mando, escrevi o que escrevi, mas quantas vezes na vida não pegamos na pele das coisas e a tomamos ou a sugerimos como se fosse a carne, a substância?
Sinto-me dividida: uma parte de mim é completamente tua, defintivamente tua, a outra é produto de toda esta situação ambígua que vivemos. Quando a primeira avança, a segunda resiste. E a minha vida é como este terrível pêndulo, este oscilar sem fim, esta luta diária entre sonho e realidade, entre manhã e fim de dia, entre o que quero e o que me impõem. Achas isso errado? Sou dona do meu destino? Fui eu quem inventou as regras, os deveres, o peso social dos outros e da crítica, as estradas dos picos e das agruras e dos medos?
Sim, sou frágil, temo muitas coisas. Sou culpada de assim ser?
Sabes, Mando, vamos deixar para o nosso próximo encontro a procura da chave do nosso futuro. Aceitas?
Olha, Agora vou beber água de lanho, neste fim de tarde lindo. Prova um pouco comigo...Estou fresca, tomei um banho maravilhoso...
Lanho-te...
Ilser

Epílogo da relação Ilser/Mando

Acontecerá aqui hoje o epílogo da relação Ilser/Mando, história real, história que segui de perto. Tenho-me limitado apenas a disfarçar contextos e biografias. Aguardem. Entretanto, o epílogo não significa o fim deste blogue, como verão. Aguardem, então.

terça-feira, julho 22, 2008

Não plantes um cadafalso na alma

Tete, 21 de Julho de 2008
Quida Il
Recebi a tua carta, obrigado por seres sincera.
Cabe-me agora a vez da palavra e vou usá-la com a mesma sinceridade com que usaste a tua.
Onde te situaste, que modelo situacional foi o teu?
O da subalternidade, supostamente teu modelo. Foi no interior desse modelo, desse prisma falso, que te viste e nos viste.
Porém, Ilser, eu nunca te vi nem nunca te verei no interior do teu modelo. O meu é completamente outro, pertence à luz real, ao promontório do futuro.
Sabes, Il, nunca te vi como mais uma, como segunda, como passageira clandestina do meu coração, como objecto de prazer consumido nas muitas noites e nas muitas madrugadas que têem sido as nossas. Foste apenas sempre tu, estrangeira a qualquer convencional hierarquia, jamais clandestina, jamais abaixo do que quer que seja. Olhei-te e olho-te como tu, como apenas tu, em tudo o que tens de belo e de diferente, de irredutivelmente único.
Minha eterna sombra, meu eterno desvão, cave da minha vida, passageira de terceira classe? Jamais. Quem te disse que os olhos das convenções e das regras do dia são os melhores juízes da pureza? Quem te disse que o amor - em tudo o que ele tem de total, de subversivo, de anti-hábito, de transfronteiriço - pertence à ordem do que os outros querem que ele seja? Quem te disse que é mais puro o mundo daqueles que, quantas vezes hipócratas, defendem a "luz do dia" como critério de verdade afectiva? E quem te disse que era nocturna a nossa luz?
Preocupa-te o que os outros querem e decidem, preocupa-te o verniz social, preocupa-te o que outros decidem que devem ser as nossas acções, preocupa-te o que o exterior decreta do que deve ser o nosso interior.
Amor ou é total ou não existe. Quando é total jamais tem em conta aquilo que os outros exigem que ele seja: uma etiqueta que exibimos de forma ordeira, pacificada, bem comportada, que tudo cumpre regradamente, que tudo exibe modelarmente como a graxa dos sapatos.
Classificas o meu amor pelos olhos da graxa dos sapatos: quere-lo luzidio, socialmente conveniente, publicamente regrado e respeitável, impoluto em seu brilho de feira de exposições, feliz das virtudes dos casais tranquilos que fazem amor duas vezes por semana sempre à mesma hora como dever bíblico e que depois adormecem nos lençois da bonomia estupidificada.
Fizeste e fazes de mim o eixo dos teus caprichos. Amas caprichos, amas-te. Eu sou uma elemento ocasional no teu autismo.
Quanto a mim, amo-te não pelos outros ou na ponta de um capricho, amo-te por ti. Tu e eu temos compromissos, sabe-lo bem. Nunca eu questionei os teus, mas tu entendeste que devias questionar os meus. Esqueceste-te de que nos jurámos amor eterno, fossem quais fossem as vicissitudes da vida. "Sou tua para sempre"- disseste-me várias vezes. Minha, Ilser? Não. Mergulhada por inteiro no teu autismo, apenas miras as convenções, o olhar dos outros. Degolas um amor no altar das convenções. Por isso, afinal, nunca amaste: apenas foste e és o termómetro da opinião pública.
Trair? Jamais. Trai não quem convencionalmente trai na tua óptica, mas quem transforma o amor em jogo de convenções. Aí sim, aí habita a real e única traição. Quem ama não olha às fronteiras dos outros, não se pauta pelas etiquetas, pela hipocrisia externa, não transforma a fita métrica dos outros em avaliador da alma. Quem ama fá-lo por inteiro, sem reservas, sem vírgulas, sem pontos finais. Quem ama não se hipoteca ao que os outros podem pensar, mas ao que as almas têm por decisivo.
Amante? Sim. No sentido mais puro e total: alma e corpo. Corpos há muitos, Ilser, superfícies de carne são replicáveis. Mas almas, Ilser, apenas há uma: a tua. E foi essa que busquei, é essa que busco.
Sabe, Ilser, que me sai da alma o que escrevo, como me sai da alma esta busca de ti faz três anos. Lembras-te daquela frase que um dia encontrámos já não sei onde? Amar é loucura salvo quando se ama com loucura.
Não assassines o amor, não plantes um cadafalso na alma, não convertas o amor numa camisa bem passada, num vestido decente, numa face conveniente, num teatro de burgueses satisfeitos com o seu relógio dos bons costumes.
Teu ontem como hoje porque sempre no futuro.
Mando

segunda-feira, julho 21, 2008

Mando já respondeu

Com uma rapidez que me surpreende - regra geral medeiam muitos dias e até semanas entre as cartas de ambos -, Mando já respondeu a Ilser, mas só amanhã aqui divulgarei a sua carta.

Como um punhal

Quelimane, 20 de Julho de 2008
Mando
Agora que estás melhor - tantos têem sido os nossos mútuos telefonemas! -, chegou finalmente a altura de te dizer com objectividade o que se passa comigo há três anos, desde que nos conhecemos através do canal que bem conheces. De o dizer por este meio que tanto amas, a carta, a epístola que, como amiúde gostas de referir, cheira a tinta, cheira a coisa real.
Custa-me muito escrever o que vou escrever, mas essa é a melhor solução para ambos. E perdoa desde já a minha sinceridade.
Da última vez que estivemos juntos senti com uma acuidade acrescida, como um punhal que me ferisse irremediavelmente por dentro, quão injusta é a nossa relação, quão ela fere as regras da decência, quão ela fere os nossos, meus e teus, quão ela é uma traição frontal aos meus e aos teus. Ainda hoje, Mando, guardo a ferida, ferida sempre mais aberta, ferida consciente de que é chegada a altura de pôrmos fim à nossa relação.
Afinal de contas, Mando, quem fui eu para ti senão a segunda, a eterna amante, a mulher clandestina que te dava prazer, mas que não podia nem pode dizer ao mundo da nossa relação? Algum dia pudeste pensar nisso, pudeste tentar sentir como eu tenho sentido, por mais amor que por ti sinta? Creio que não.
Tranquilamente foste arranjando planos para os encontrarmos, para vivermos e viveres a eterna sombra que para ti sou, o eterno desvão, a cave da tua vida, tua vida que à superfície é outra e que não não posso nem me deixas partilhar. Entendes, Mando, o meu sofrimento? Vária vezes tentei dizer-te isso, mas sempre me coibi de o dizer frontalmente, tentei que percebesses de forma indirecta. Mas tu sempre achaste que poderíamos manter esta relação tal como está, secreta, inexistente aos olhos da sociedade e dos costumes, cheia de pecado, pecado que Deus nunca me perdoaria se eu não fosse capaz, finalmente, de dizer não, de pôr um basta a tudo, mesmo que isso me custe, como me custa.
Era isto, em breves palavras, Mando, o que eu queria dizer-te. Estaremos juntos ainda na vez que combinámos já, mas será a despedida. A partir desse dia seremos livres um do outro, com amizade, sem segundos sentidos nem mais obscuridade (a minha), está bem?
Perdoa-me a sinceridade.
Recebe o meu afecto carinhoso.
Sempre amiga.
Ilser

Ilser vai romper

Acabei de saber por Ilser que ela sofre e que vai romper a relação que há três anos tem com Mando. Não me perguntem o que se passa, ela prometeu-me dar a conhecer o problema se possível ainda hoje, naturalmente que pela habitual carta. Aguardo. Aguardem.

sábado, julho 12, 2008

longas de ti estão

Tete, 10 de Julho de 2008
Olá quida, aqui me tens a escrever-te, sem dúvida que com atraso, mas vou já explicar-te a razão do atraso.
Estive bastante tempo numa região nortenha da província, a braços com o chato trabalho que conheces bem. Acho que estou febril, eventualmente tenho malária, mais logo consultarei um medico amigo.
Regressado à cidade, tomado um banho reparador, bebo agora um chá quente, em meio a esta calma toda desta pequena cidade onde até o silêncio, a esta hora, são 19, é ruidoso.
E aqui, deitado, recostado na memória, armado de laptop, entretenho-me a folhear os dias, não os dias que têm sido os nossos, mas os dias que virão. Tenho para mim que nunca são os dias que vivemos que importam, mas os dias que virão.
E tenho o direito, absolutamente tenho o direito de te recordar sensorialmente, de forma intensa, ávida, ansiosa, definitiva, pese embora a febre que julgo ter. Provavelmente este sentir-te em dias que virão deve tornar-me mais febril ainda.
E nesta recordação sinestésica, recordo a tua pele, os teus cabelos, recordo-te em cada percurso táctil que em ti construo, em cada esquina dos meus sentidos erectos de forma repentina. E vê tu o que me acontece: enquanto antecipo os dias que virão, deito a cabeça febril na tua alma e sorvo com avidez a ternura com que as tuas mãos me dizem: dorme Mando, estarei aqui velando-te.
Tatá, quida Il. Amanhã estarei melhor, acredita, perdoa a brevidade destas linhas. Mas se breves as linhas, longas de ti estão.
Soute, habitame, tudo sem travessão.
Teu.
Mando