sábado, fevereiro 02, 2008

o rio meteu-nos dentro da sua alma

Tete, 1 de Janeiro de 2008
Quida Il
Aproveito a ida do Sitoe para aí para lhe fazer portador desta carta para ti. É sempre mais física, mais real, uma carta com papel e tinta. É como se fosse carne e alma e amplexo.
E aqui estamos, tu e eu, após estas duas semanas em que estivemos juntos. Mal nos desenlaçámos e lá comecei eu a sofrer.
Ontem estive longamente sentado no areal a olhar este rio majestoso, o Zambeze, ele que anda tão nervoso agora, galgando margens, assolando populações.
E perguntei-me, quida Il, sobre a razão por que anda ele tão intempestivo, tão rebelde em relação às margens, tão desejoso de independência, tão mau afinal.
Pus-me, então, a inventariar as causas naturais que os nossos jornais disseminam.
Mas ali sentado, naquele areal, com o rio todo temporariamente domesticado dentro de mim, dos meus sonhos, dos nossos sonhos, descobri a causa de tanta demasia, de tanto desvario: o rio sofre por nós, é por nós que ele se rebela contra as margens, é por nós que ele protesta tão duramente.
E sabes por quê? Muito fácil: quando nos encontramos aqui vê tu quanta placidez, quanta lisura, quanta bonomia. O seu movimento é, então, o repouso, a sua pressa é a calma. Mas logo que saímos, logo que partes, logo que nos tornamos estrangeiros à ligação, ao contacto regular, ele protesta.
E assim, quida Il, o rio meteu-nos dentro da sua alma. Cada uma das nossas palpitações, o mais modesto suspiro, logo isso desencadeia a rebeldia, diria mesmo que o choro do Zambeze, a subversão contra as margens que o comprimem, margens que são as mesmas que nos comprimem, a ti e a mim, no leito do furtivo.
Vamos agora aguardar novo encontro, neste nosso ser em que tudo é nosso menos a normalidade, em que tudo nos pertence menos a regularidade, em que todo nos falta menos o gesto ansioso e escondido do reencontro.
Desejo-te.
Teu.
Mando