terça-feira, janeiro 01, 2008

Meu Mando, minha ausência

Quelimane, 1 de Janeiro de 2008

Meu Mando
Consegui que um portador, o gentil Sitoe, levasse esta carta para ti, a primeira deste ano, no avião que daqui partiu. Espero que ela te chegue, é forçoso que ela te chegue, ela te chegará.
Li a tua última carta e guardo na alma ainda o sabor das palavras que trocámos por celular estes dias todos.
Mas dói-me profundamente toda esta espessa, dolorosa ausência.
Caminho em mim caminhando em ti no preciso momento em que descubro, atónita, que caminho aqui sem ti caminhando no sonho de ti.
Sou a dor da ausência, a súplica da impotência, o trilho de um vazio.
Sei, sabes, sabemos ambos que somos a realidade inexorável do segredo, que cada um dos nossos gestos está agrilhoado pelo furtivo fatal dos amantes proibidos.
Se isso é belo, se isso é a permanência do novo e da surpresa e da reinvenção da vida, não é menos doloroso porque estamos ambos privados da plenitude do que queremos, do que ansiamos a cada momento.
Em cada um dos nossos anseios está plantado o sinal do proibido. Por isso exulto e sofro ao mesmo tempo.
Diz-me, meu Mando, quando nos reencontraremos de novo, neste novo ano, nesta nova busca.
Amo-te mais do que ontem e bem menos do que amanhã. Sabe-lo.
Tua, sempre.
Ilser