sábado, dezembro 15, 2007

Quida Il

Tete, 13 de Dezembro de 2007

Recebi a tua carta. Reparaste que levei desta vez mais tempo do que é habitual para te responder.
De forma figurada: quis ficar mais tempo com o sabor da água do lanho dentro de mim, do lanho que me mandaste, quis que esse sabor se consolidasse, lentamente, definitivamente, redefinitivamente.
E assim foi, fixou-se, espécie de âncora cujo barco nunca, afinal, zarpou. Ficaste rizoma, sempre me foste rizoma, sempre me foste raiz indestrutível. Já viste os nossos embondeiros: és em mim a solidez inamovível dos embondeiros.
Sim, tens absoluta razão quanto ao ciúme. Mas tenho eu culpa de querer-te mesmo quando não te quero, de desejar-te mesmo quando não me queres, de ser-te mesmo quando os deuses ficam ciumentos?
Tenho de ti uma concepção de senhor feudal: a posse total, infinita. Achas isso mau? Achas isso evitável? Como posso ter ordem lá onde a desordem dos sentidos em sua ordem implacável me impele para ti?
Não vês que me fazes e refazes em cada momento desta vida? Não sabes que és a enzima da minha razão de ser, o oxigénio que me tatua à vida?
Quero-te. Teu.

Mando

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Mando respondeu

Chegou a resposta de Mando a Ilser. Amanhã publico-a.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Cartas d´almor

Este blogue tem um concurrente: chama-se cartas d´almor. Bem vindo, bom sucesso!

domingo, dezembro 02, 2007

Meu Mando, minha transgressão

Quelimane, 1 de Dezembro de 2007
Mando
Com um tempo de réplica mais curto do que entre nós é habitual, aqui me tens de novo, passados estes dias todos, uns de encanto, outros de dor.
De encanto, porque, uma vez mais, amámo-nos, aí, na tua Tete, amámo-nos até à saciedade, fundindo corpo e alma, acordando as madrugadas, saudando o Zambeze, chamando as tuas rolas, dando rédea solta aos sonhos que a rotina veda e o bom senso mutila.
De dor, porque entendeste que, por ter dançado com um amigo naquela festa, imediatamente eu me "atirava" a ele.
Sabes, Mando, tu és muito inteligente, muito terno, muito especial, muito diferente do gregário habitual e rançoso das nossas terras, mas nestas banais coisas ficas comum, a alquimia do calor (sempre maldito nessa tua terra) transforma-te: logo pensas que uma mulher está disposta a ir para a cama com o primeiro tarzan que lhe aparece na árvore das possibilidades.
Não foste capaz de pensar e de sentir que se tratava de puro afecto, de irmã para irmão, quase. Pensaste em tudo o que de mau pode existir, apressado e tolo, no alto dos teus prejuízos. Não confiaste em mim, puseste en causa a solidez do amor que te tenho.
Mas agora está tudo de novo bem, não é, Mando? Deixámos o pólo negativo e estamos de novo no positivo, para usar as tuas palavras. Caminhemos em frente, lá onde, horizonte intuído, vertigem sentida, futuro amestrado, tu e eu construímos a estrada das possibilidades.
Não me deixes, não me amputes, sê-me tatuagem eterna.
Nunca esqueças isto: amote (sem travessão) mais do que ontem e bem menos do que amanhã.
Tua, sempre.
Ilser
N.B. Olha, mando-te também um lanho de um dos meus coqueiros aqui. Parte-o docemente e depois sorve a água. Quando o fizeres, docemente também, sentirás que me estás a sorver. Sabes bem que sou doce. E estes meus lábios são-te em permanência.

sábado, dezembro 01, 2007

Para Ilser

Tete, 29 de Novembro de 2007
Um dia ouvi esta história, que tem o condão de ser fantástica por ser banal.
Foi assim: por terras dos mares, de algum mar, de algum dia que os anais ameijoais não registaram, duas amêijoas amavam-se na areia, naqueles momentos em que o mar reflui e deixa às coisas quentes da vida a possibilidade de a fertilizarem. Quando a amêijoa homem beijava a amêijoa mulher, chamava-se ele Mando e ela Ilser, acontece que a concha de Ilser se fechou subitamente. Tão rápido e espantoso acto magoou os lábios de Mando. E ontem, hoje, certamente amanhã, Mando interroga-se não sobre a dor, não sobre os acasos das conchas que se fecham, não sobre a interrupção de gesto tão doce quanto o de beijar, moluscos que sejamos, mas sobre o destino dos lábios de Ilser, naquele dia, algures na vida, hoje na maré vazia dos sonhos.
Mando