domingo, outubro 28, 2007

Meu Mando

Quelimane, 26 de Outubro de 2007
Mando
Olá! Sim, recebi o pta, uma alegria sem fronteiras habita-me agora, sabes? Obrigado!
Mas, olha, um pequeno contratempo familiar (o Luís está com varicela) vai obrigar-me a mudar a data de embarque. Se não te importas, depois te darei conta da proposta de nova data, concordas? Irei passar pela agência de viagens na próxima semana. Perdoa-me.
Anteontem fiz uma coisa que não fazia há muito: corri cerca de uma hora, depois estive outro tanto na piscina.
Quis sentir o meu corpo, moldá-lo, tê-lo vivo, tenso. E assim corri, corri calmamente por vários bairros desta pacata e intemporal cidade. Tive algumas dificuldades iniciais, pois não é normal correr-se aqui assim, de fato de ginástica, não é normal correr por prazer. Claro que aqui raramente alguém corre, o andar sem tempo é a regra generalizada, mas se houver que correr é porque chegou alguém ao aeroporto, parente, dirigente, etc., fenómenos de terra pequena. Ou então corre-se porque se roubou o alheio. Agora correr por prazer é quase sacrilégio. Por isso as pessoas paravam, visivelmente intrigadas, comentando, apontando-me.
Mas, algum tempo depois, fiquei só em mim, estrangeira aos basbaques.
E depois de tomar um banho delicioso, nadei, nadei sem parar. E o corpo, Mando, era finalmente meu, corpo liberto da rotina, da pátina dos hábitos, de todas aquelas inumeráveis coisas que temos de fazer, que as mulheres têm de fazer, corpo rejuvenescido. Deixei de pensar para ser apenas corpo, a deliciosa sensação muscular, sinestésica, líquida, de natureza, natureza pura, sem portas, sem freios, sem limites. Isso mesmo, natureza sem limites. E contigo morando-me, sabes?
Depois sentei-me um pouco numa cadeira de encosto e fiz amor com o sol, vivo, táctil, quente.
E enquanto fazia amor com o sol, antecipava os momentos da nossa re-união, aí, abençoados pelo Zambeze que tanto amas.
Deixa-me habitar-te, Mando, ser-te.
Até breve.
Amo-te mais do que ontem e bem menos do que amanhã.
Tua.
Ilser

1 Comments:

Anonymous ivone soares said...

(Claro que aqui raramente alguém corre, o andar sem tempo é a regra generalizada, mas se houver que correr é porque chegou alguém ao aeroporto, parente, dirigente...)
palavreando docemente... Ivone Soares

terça-feira, novembro 20, 2007 10:40:00 da manhã  

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