sábado, maio 26, 2007

Meu Mando, Meu Mundo, Meu Horizonte

Quelimane, 25 de Maio de 2007

Meu Mando, Meu Mundo, Meu Horizonte

Sabes, saudade. Assim. Assim mesmo.
Saudade intensa, saudade que não cabe em mim, que me afoga, martiriza, fere, faz sangrar, doer, dói.
Dói muito.
É como se, Mando, o perto fosse para sempre distante e o distante tivesse a irremediabilidade das coisas imutáveis.
Sofro, sofro de ti.
Acho que a vida cabe hoje inteira no que não tenho e no que tenho, vê tu, tu me faltas.
Mas, ao mesmo tempo, cruel dialéctica, nesta pequena e tacanha terra sinto que tu me estás e que me és, que me estás e que me és para sempre, de forma intensa, sem perímetro, como um doce espinho cravado na minha alma e cuja dor me alimenta sem cessar.
Tatuaste-me de ti.
Sou a dor de te amar, sou a serva fiel do desejo, sou-me-te, na alma te cultivo, com a alma te almo.
Grito para ti, corres em meu sangue, és a cachoeira que me mantém viva.
Não tenho amarras nem delas preciso pois a minha âncora ficou e ficará para sempre germinando na tua enseada.
Oh, Mando, sou o combóio sem apeadeiros no eterno apeadeiro que me és.
Vem, Mando, suicida o tempo, abole a distância.
Quero-te hoje mais do que ontem e bem menos do que amanhã.

Tua.
Il

sexta-feira, maio 18, 2007

Minha Il

Tete, 17 de Maio de 2007

Minha Il

Perdoa-me só hoje te escrever. Uma vez mais, os afazeres profissionais levaram-me para bem longe da cidade, lá onde tudo me recordou e me recorda a tua ausência.
Aqui chegado, reli a tua última carta.
Pedes-me que te alije do passado para sermos integralmente filhos do futuro.
Não, absolutamente não. É justamente esse passado, é justamente este presente, é justamente esta dupla angústia que alimenta e robustece o futuro. Este só tem sentido quando nele age o aguilhão do que nos atemoriza.
Por isso somos os jovens amantes de um futuro que construímos nadando na água eriçada de passado e presente.
A nossa juventude alimenta-se de duas coisas: da penumbra secreta na qual amamos e do lastro sempre vivo dos perigos que nos espreitam.
Ambas as coisas dão ao nosso amor o sinete da juventude e da novidade, do risco e da apetência renovada.
O teu precipício, Il, é, afinal, a nossa razão de ser. É a espantosa sensação de vertigem e de queda eminente que tatuam na nossa relação a beleza do sempre incriado, do sempre novo, do sempre procurado, do sempre inacabado.
O nosso destimo, minha doce Il, é justamente esse. E ainda bem. Por isso seremos eternamente jovens porque eternamente renovadores. E renovados.
Somos as fénixes das albas sem fim.
Cada porta do futuro precisa de ser aberta com as mãos da inquietação. Da nossa doce inquietação.
Escuta: preparo a minha ida aí. Breve te darei pormenores.
Habita-me, Il.
Sempre teu.

Mando

sábado, maio 05, 2007

Meu Mando, Meu Mundo

Quelimane, 4 de Maio de 2007

Meu Mando, Meu Mundo

Os dias passaram. Os dias passam. Naturalmente que os dias passarão.
E enquanto o tempo passa, eu folheio as recordações, fiz isso especialmente em todos estes dias em que não pude estar contigo por razões que conheces bem.
Infelizmente fui demasiado vigiada durante este tempo e por isso preferi esperar uma aberta para voltar ao teu contacto.
Aqui me tens de novo.
Continuo a reler a tua última carta, continuo a pensar nesta nossa relação tão pungente, tão nossa, tão definitiva, tão necessária para ambos, neste trato diário com a alegria e com a dor, com a esperança e com a angústia, com o amanhã e com o ontem.
Somos, Mando, como dois seres dentro de uma cabana suspensa num precipício: não podemos nem avançar nem recuar. Somos a vertigem suspensa mas sempre viva entre um futuro que ignoramos e um passado que não queremos.
Mas deixemos isso agora.
Olha, recomecei a estudar. Ainda não te tinha falado disso. Como sabes, houve tempo em que quis fazer medicina. Agora estou em direito.
Para seguir a tradição do meu pai, fui para medicina. Depois cansei-me. Agora tento direito. Quero, afinal, ter o direito de pensar por mim.
Mas o meu problema, Mando, é que os meus desejos são muitas vezes contrariados pelo desespero da insegurança. Quando julgo avançar tenho como que uma corda a puxar por mim e a suster-me na inércia.
Sou um vírgula tensa, frágil.
Ajuda-me a manter o futuro, alija-me do passado, meu Mundo!
Escreve-me e diz-me quando nos reencontraremos.
Sou-te, quero-te.
Tua.
Il