sábado, abril 14, 2007

Minha Il

Tete, 13 de Abril de 2007

Quida Il

Como tu em relação à minha carta, li e reli a tua.
Tu sabes, eu sei, todos nós, afinal, sabemos, sem querermos saber, que todas as cartas de amor são ridículas apenas quando não são escritas.
Somos nós quem está dentro de cada letra, dentro de cada palavra, dentro de cada frase, de cada sinal de pontuação. Dentro do que escrevemos, alegres ou tristes. Mas, especialmente, dentro do que não escrevemos ou porque o papel é finito ou porque o horizonte é infinito ou, finalmente, porque é infinito o nosso finito.
Certamente te interrogas, agora, sobre o sentido de tão estranha forma de te responder.
Mas sabes bem que te estou a responder.
Afinal, quida, cada carta de amor é um amor com a cadência da vírgula, à espera, sempre, do ponto final, lá onde, em meio à turbulência da nossa vida, tua e minha, nos encontramos em cada espera, em cada esquina da ânsia, em cada madrugada da espera.
Tenho até para mim, Il, que a paixão genuína está justamente na imagem do precipício que usaste, na cadência que usaste, no ritmo que enxertaste neste amor que é uma carruagem sem apeadeiro mesmo quando nos encontramos em cada apeadeiro, breve que seja o encontro, finito que seja no infinito da nossa busca por novo apeadeiro.
E é quando penso na tua imagem do precipício - bendito seja ele! - que sinto forte quão alheio de nós é o hábito, quanto em nós habita aquela surpresa renovada e cúmplice dos amantes, aquela apetência do novo, aquele espanto que habita os sopés quando estes miram o cume das montanhas.
Nenhum amor sobrevive ao hábito. O hábito é, sempre, o túmulo do amor.
Não poderei, assim, ser o teu apeadeiro final. Apenas poderei ser o teu apeadeiro em cada rota da nossa busca sem fim.
O verdadeiro amor só existe quando ao fim de cada gesta do seu labor subsiste um ponto de interrogação. Nunca nenhum amor o foi com pontos finais.
Teu, sempre.

Mando

domingo, abril 08, 2007

Meu horizonte

Quelimane, 06 de Abril de 2007

Meu Mando, meu Horizonte

Sabes, releio vez sobre vez, página após página, sonho a seguir a sonho, a carta que me escreveste.
Nesta sem medida na medida de te querer, é como se, no meio do destino, eu tivesse de parar e perguntar-me, uma vez mais: como suster o destino?
Escuta, não falo do destino tal como o definiste, falo do destino tal como o sinto, como algo que se faz, que se cumpre diariamente, que sempre se cumprirá, mas do qual está e estará ausente a subversão do destino que nos aproxima cada vez mais no preciso momento em que outro destino - se o mesmo ou outro, ignoro - nos afasta, nos enche desta distância má, sem medida, que nos povoa como um mau espírito indomável.
Sinto-me como se na borda de um precipício: a tua mão puxa-me para trás, a tua ausência impele-me para a frente.
Sou o sonho que te busca, sou a realidade onde me faltas, sou a estrada sem término, sou-te o término sem te ter.
E enquanto bebo a doce água deste lanho, nesta terra onde só acontece o que não acontece, onde o espanto se tornou enfado igual a outros enfados, enquanto bebo espreito o singular destino das coisas belas: terem a vida de um efémero momento, como o voo de uma borboleta que, de forma tão cruelmente curta, sobrevoa a esperança sem que tenhamos tempo para lhe beijar as asas.
Meu Mando: apaga esta distância, leva-me para dentro de ti, sê o meu apeadeiro final.
Tua.

Il