sexta-feira, janeiro 26, 2007

Meu Mando

Quelimane, 23 de Janeiro de 2007

Meu Mando

Olá, querido!
Perdoa ter estado todos estes dias sem te responder, mas acontece que estive com malária, febres altas e toda aquela indisposição dolorosa que bem conheces aí em Tete. Felizmente fui bem medicada e acompanhada por um médico amigo e hoje posso dizer que estou quase reposta, salvo um resto de enjoo e um ligeiro quebranto.
Sabes, comecei a bordar. Nunca na minha vida bordei, minha mãe fazia-lo, sempre me quis ensinar, mas eu nunca quis, preferia estar ao ar livre, correr e pular, coisa de criança. Nem de bonecas gostava...Mas decidi-me, finalmente, começar a aprender e minha mãe tem sido inexcedível, ensinando-me pouco a pouco. E agora, vê tu, já sou capaz de bordar com alguma segurança.
Certamente me vais perguntar porque me decidi a bordar. Eu própria não sei. Ou se sei não quero saber. Prefiro bordar. Mas sabes, Mando, quando bordo tenho a sensação de que construo algo, de que construo, que dou vida a algo bem mais vasto do que um tecido reelaborado com agulha e linha.
Acho que aquilo que bordo é, afinal, o nosso futuro. Tu és a agulha, eu sou a linha, a manta que bordo é o nosso futuro. E assim me tens agora todos os dias bordando, bordando-te, bordando-nos. Vês como afinal sei por que bordo? Eheh, ponho-te a língua de fora.
Sobre a ida aí, deixa-me estudar bem como fazer, nos próximos dias já terás uma resposta minha. Irei, Mando. Aguarda, então.
Tem chovido torrencialmente aqui, há muita gente sem abrigo, a cidade está um horror. É nestes momentos em que nos apercebemos quão frágeis são as defesas dos pobres, pobres a quem vamos depois pedir votos quando as eleições chegam. Assim é: enquanto eu bordo o nosso futuro, os ricos bordam a pobreza de milhares de quem apenas se lembram nas eleições.
Por hoje fico-me por aqui, amor. Vou deitar-me um pouco, ainda estou ligeiramente combalida.
Tal como escreveste no poema que mandaste na garrafa e que me chegará, não importa quando nem como, sou-te o cais. Sempre o serei. Acosta a mim, querido, acosta!
Amo-te mais do que ontem e bem menos do que amanhã.
Tua sempre.

Il

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Minha água doce de lanho

Tete, 17 de Janeiro de 2007

Minha Ilser
Minha água doce de lanho

Perdoa-me estes dias de silêncio.
Estive lá para os lados da Cabora-Bassa e, mais tarde, para os lados do Mandié. Sem poder comunicar contigo.
Dias de trabalho penoso, de muito calor. E amputado de ti.
Regressei ontem à cidade.
Após um banho reconfortante, fui jantar à Piscina, uma bela galinha cheirando bem a carvão (como adoro, sabe-lo bem) e uma bela Manica fresca.
Na saída, a pé, decidi andar um bocado junto ao Zambeze. Há muito que o não fazia.
Calmo, adormecido, ali o encontrei. Parecia que me esperava, sabes?
Sabes o que fiz, Il? Fiz assim: numa garrafa de Fanta meti um guardanapo de papel. Depois de ter rolhado a garrafa, a deitei no rio. Lentamente, a garrafa foi-se afastando, como uma espécie de destino irrevogável e por isso tranquilo.
Eu sei, como em todos os sonhos, que essa garrafa te chegará um dia, não importa quando ou como, mas te chegará. Algum sonho deixou algum dia de chegar?
No papel escrevi assim:

Na alma deste rio
no rio deste sonho
no sonho deste momento
no momento deste ser-te
recebe-me como sempre fui
o destino de um cais
o cais que sempre me foste
para este tu que te sou

E por hoje aqui fico, minha Il.
Que os deuses te protejam.
Teu.

Mando

N.B. - Diz-me quando estás disponível para aqui vires para que eu trate do bilhete de avião.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Meu Mando, Modo Meu!

Quelimane, 07 de janeiro de 2007

Meu Mando, Modo Meu

Recebi a tua cartinha, que tão feliz me tornou. Letras tuas são tu, és tu, é o meu modo de te saber e de te ter quando a distância nos tortura e Deus parece esquecer-se de nós.
Falaste-me da tua solidão, falaste mesmo em purificação. Tristes palavras, duras realidades.
Ó, pudera eu purificar-me para sempre em outra vida tornada ti, tomara eu poder reescrever o destino, tomara eu ter o condão de não escrever cartas de amor para, sendo-te e sendo-me, sermo-nos sem palavras, sem cartas, sem artifícios, sem intermediários, sem coisas, apenas tu e eu, um só ser, puro, belo, inamovível, inseparável, eterno.
Como tu aqui sofri, como tu aqui fiquei no quintal triste da alegria dos outros, como tu aqui estive sem estar, abraçada a mim sem poder abraçar-te, ausente de mim por de ti estar ausente, estrangeira à minha alma por londe estar a tua. Nasci em 2007 sem ter nascido porque não te fui, não nos fomos, ainda não somos.
Mas, ao mesmo tempo, sabes, sinto e sei que a distância se encurta, algo muito dentro de mim, muito forte, muito definitivo, me diz que este amor secreto está próximo da tua margem, do porto onde irei um dia deixar a minha âncora, o meu ser.
Meu Mando, tenho uma novidade para ti: estou pronta a ir aí, estou pronta a aceitar o teu convite.
Por favor, diz-me como deverei proceder.
Haja o que houver, vou aí.
Aguardo ansiosamente a tua resposta.
Com angústia, uma vez mais, me despeço, te deixo, ficarei reduzida às linhas que irás ler, a um momento frágil, precário. Mas sente-me nelas, por favor. Sente-me intensamente!
Sempre tua.
Amo-te mais do que ontem e bem menos do que amanhã.

Il

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Minha princesa

Tete, 03 de Janeiro de 2007

Minha princesa

Aqui me tens, neste primeiro mês de 2007, a escrever-te.
Em terra pequena farra grande. Assim foi, de facto, nesta terra por ocasião do Natal e do fim de ano.
No que me concerne, lá andei um pouco pelas casas dos amigos, no ritual de todos os anos.
Sempre me espantarei com esta necessidade de purificação que sentimos quando algo está para chegar ou para acabar. Lá me fiquei eu, uma vez mais, a apreciar as pessoas, todas elas escavacando a rotina, o dia igual, o tédio. Dizemos coisas que raramente dizemos, rimos da maneira que raramente rimos, mexemos o corpo como nunca mexemos nos dias de todos os dias do ócio. E assim foi.
E eu, minha princesa, que não disse, que não ri, que não mexi o corpo. Porque eu estava e estou amputado, amputado de ti.
Estou hoje ainda sem resposta tua, quanto à tua vinda aqui. Aguardo que me respondas.
E por hoje te deixo, nesta terra pequena, abraçada pelo Zambeze, ferida pelo calor.
Sofro.
Sempre teu.
Habita-me, por favor!

Armando