terça-feira, novembro 14, 2006

Querida Il

Tete, 14 de Novembro de 2006

Querida Il
Obrigado pela tua carta, amei recebê-la. Cartas tuas são emanações tuas.
Acho que vivemos ambos numa mesma solidão, a tua marítima, a minha fluvial. Tu te encostas ao Índico, eu ao Zambeze. Acho mesmo, Il, que oceano e rio são os reservatórios das nossas lágrimas.
Lamento profundamente não ter podido estar em Maputo quando lá estiveste, mas acontece que os meus afazeres profissionais me levaram para bem longe da cidade, para o Zumbo, um lugarejo a cerca de 400 km daqui que parece estar no passado e não no presente. E não tive tempo para te avisar. Pior ainda: voltei com uma carga de paludismo pavorosa e estou ainda a recuperar, lentamente.
Acredita que penso cada vez mais nesta distância, nestes encontros furtivos, curtos, cujo término já está embutido no seu começo, que temos em Maputo.
É como se, minha Il, fôssemos ambos a Maputo para agarrar o que é fugaz, o que é um parêntesis na nossa busca mútua.
Deixa-me recuperar da febre para te poder escrever mais demoradamente como mereces.
Sabe que te amo mais do que ontem e bem menos do que amanhã, Il.
Sempre teu.

Mando