terça-feira, novembro 28, 2006

Para Júlia


Aqui apenas tiveste tempo para escrever um comentário. Lá onde agora estás, que os deuses te protejam. Até sempre!

quinta-feira, novembro 23, 2006

Doce Il

Tete, 23 de Novembro de 2006

Doce Il

Obrigado pela tua gentil carta.
Felizmente estou já recomposto do paludismo.
Ontem estive a dar alguma ordem à casa. Uma barafunda do diabo, sabes? Fartei-me de espirrar com tanto pó.
Um pormenor abominável: por mais que tente não consigo nunca fazer bem a cama. Por que será? Irremediável fatalidade masculina?
Sou estupidamente desajeitado.
Perguntas-me quando nos reencontraremos em Maputo. Isso depende menos de mim do que de ti, como bem sabes: eu sou solteiro, tu és casada.
Mas sabe que a qualquer momento para lá parto se me deres um sinal.
E, para ser franco, tenho saudades que não cabem em mim, entendes? Preciso de ti, preciso deitar-me na tua alma, preciso habitar o teu corpo.
Urgento-te! Os deuses maus inventaram esta distância e este cruel destino.
Acresce que estou saturado deste calor e destes mosquitos malditos!
Il: diz-me rapidamente quando poderemos de novo acordar as índicas madrugadas de Maputo!
E por aqui me fico hoje, minha Il.
Sempre teu.

Mando

quinta-feira, novembro 16, 2006

Para o meu Mando

Quelimane, 16 de Novembro de 2006

Meu Querido Mando

Fiquei feliz por receber a tua carta, é como se fosse uma golfada de ar fresco nesta solidão.
Felizmente já não tenho dores de cabeça.
Espero que possas recuperar rapidamente do paludismo, sinto-me inquieta.
Tenho andado nestes dias a visitar a cidade. Não, não te rias. Eu conheço bem esta cidade, mas nem sempre a visito, melhor ainda, nunca a visito. Decidi que era altura de a visitar. E devagar, com os olhos que decidi tornar atentos, comecei a visita.
Passo lentamente pelas ruas, pelas casas, pelas pessoas. É como se tudo fosse de repente novo, com a cor das coisas nunca vistas, com o ar do cheiro novo a tinta, com o sabor da chuva nova.
E ao fazer essa visita, descubro quanto eu não conheço, afinal, a cidade onde nasci, quanto um olhar tornado novo nos pode dar a ver o que julgávamos já ter visto.
Mas há uma coisa que permanece, uma espécie de fundo permanente, algo inamovível. Esse fundo é uma espécie de tristeza, uma espécie de tristeza que é como uma roupa aderida a tudo, às coisas e às pessoas.
Não é uma espécie de tristeza, não. É a própria tristeza.
Sempre tive a sensação - e agora volto a tê-la - de que a minha cidade é o passado que por acidente está neste presente (também tu falaste em passado na tua carta a propósito do Zumbo), é como se todos os espíritos das donas, nossas antepassadas, daquelas mulheres que eram rainhas daqui, como sabes, estivessem vivos e nos dissessem com voz doce que nós apenas temos por missão cultivar esse passado e tratar deles.
Bem, meu Mando, por hoje fico-me por aqui.
Aguardo ansiosa a tua resposta.
Tua para a eternidade.

Ilser

P.S.- Quando nos voltamos a encontrar?

terça-feira, novembro 14, 2006

Querida Il

Tete, 14 de Novembro de 2006

Querida Il
Obrigado pela tua carta, amei recebê-la. Cartas tuas são emanações tuas.
Acho que vivemos ambos numa mesma solidão, a tua marítima, a minha fluvial. Tu te encostas ao Índico, eu ao Zambeze. Acho mesmo, Il, que oceano e rio são os reservatórios das nossas lágrimas.
Lamento profundamente não ter podido estar em Maputo quando lá estiveste, mas acontece que os meus afazeres profissionais me levaram para bem longe da cidade, para o Zumbo, um lugarejo a cerca de 400 km daqui que parece estar no passado e não no presente. E não tive tempo para te avisar. Pior ainda: voltei com uma carga de paludismo pavorosa e estou ainda a recuperar, lentamente.
Acredita que penso cada vez mais nesta distância, nestes encontros furtivos, curtos, cujo término já está embutido no seu começo, que temos em Maputo.
É como se, minha Il, fôssemos ambos a Maputo para agarrar o que é fugaz, o que é um parêntesis na nossa busca mútua.
Deixa-me recuperar da febre para te poder escrever mais demoradamente como mereces.
Sabe que te amo mais do que ontem e bem menos do que amanhã, Il.
Sempre teu.

Mando

segunda-feira, novembro 13, 2006

Para o meu Mando

Quelimane, 12 de Novembro de 2006

Meu querido Mando

Cheguei bem, apenas um bocado cansada da viagem, leva muito tempo, sabes como é. E depois aqui está muito quente, como sempre.
Deixei Maputo e já sinto saudade do espaços com movimento, sinto saudade das coisas largas. Acho que sinto até saudade de perder essa saudade. Sabes, a saudade é um amor que fica preso a uma coisa boa que vivemos, uma espécie de alfinete irremediável que fica cravado no coração.
Mas o pior foi desta vez não te ver. Doeu-me, dói-me muito isso, este vazio, esta sensação terrível da ausência de encontro. Machuca-me esta distância, este vazio, este vácuo. Estive seis dias em Maputo com uma necessidade terrível de ir ter contigo, aí. Mas não foi possível. Que tristeza tão horrível, meu querido!
Aqui me tenho e me tens de novo nesta terra que parece esquecida de Deus. Aqui a solidão é tanta que até é colectiva, parece que habito numa cidade de solidões, embora pareça que não.
Meu Mando, perdoa-me não te escrever mais hoje, o farei proximamente, está bem? Sinto-me não só cansada como, também, estou cheia de dores de cabeça.
Escreve-me, por favor.
Sempre tua.
Ilser

Eu, Ilser

Bom dia. Chamo-me Ilser e, tal como disse o Armando, aqui escreveremos cartas de amor. Não, não teremos pudor, nem ele nem eu.

domingo, novembro 12, 2006

Apresentação

Olá a todos! Eu chamo-me Armando, ela chama-se Ilser. Com a vossa permissão, aqui nos escreveremos cartas de amor.